quarta-feira, outubro 06, 2010
E-waste
No final do mês passado, o estudante Carlos André trocou de celular – uma atividade banal para milhares de brasileiros todos os anos. E com o modelo novo na mão, ele não teve dúvidas: jogou o velho no lixo. E qual é o problema disso? Isoladamente, é uma gota no oceano. O problema é o tamanho e a toxidade que este oceano vem ganhando a cada dia que passa. No mundo, aproximadamente 1,5 bilhão de celulares são substituídos a cada ano. Resultado: a montanha de lixo eletrônico – ou e-waste – aumenta em 50 milhões de toneladas. Isso é descarte suficiente para carregar uma composição de vagões de trem capaz de abraçar o planeta na altura do Equador.
E-waste, que vem do termo em inglês electronic waste, é o nome dado aos resíduos resultantes da rápida obsolescência de equipamentos eletrônicos como televisores, celulares, computadores, geladeiras e outros dispositivos. Tais resíduos, que são muitas vezes descartados em lixões, constituem-se num sério problema para o meio ambiente.
Muitos grupos ambientalistas afirmam também que o processamento informal deste lixo causa sérios problemas a saúde e também a poluição. Alguns componentes eletrônicos, como os monitores CRTs, contém chumbo, cádmio, berílio e mercúrio. Em contato com o solo, estes produtos contaminam o lençol freático e se queimados, poluem o ar. Além disso, causam doenças graves em catadores que sobrevivem da venda de materiais coletados nos lixões.
Maiores produtores mundiais de e-waste, Estados Unidos, Europa e Japão reciclam somente 30% do seu lixo eletrônico. O restante é exportado para nações pobres. Por que fazem isso? E por que aceitam que o fazem? A justificativa: o refugo estimularia a inclusão digital. A estratégia, na verdade, evita gastos com a reciclagem e ainda dribla a legislação ambiental do primeiro mundo.
Os principais destinos desta pilha inútil são a China, alguns países da África, a Índia e o Paquistão, que recebem cerca de 500 contêineres mensais. O Greenpeace diz que a desova ainda inclui outros destinatários, como Chile, Argentina e Brasil. Mas estes países não são somente receptores de lixo eletrônico. São também produtores.
Seguido do México e da China, o Brasil é o maior produtor per capita de resíduos eletrônicos entre os países emergentes, segundo recente estudo da Organização das Nações Unidas (ONU). De acordo com o estudo, nosso país descarta cerca de 96,8 mil toneladas métricas de computadores pessoais anualmente, volume inferior apenas ao da China, que atinge 300 mil toneladas. Mas, se analisarmos a quantidade de lixo gerada por pessoa, o Brasil está na liderança: é meio quilo de e-waste per capita em terras tropicais, contra 0,23 quilo na China e 0,1 quilo na Índia.
É claro que o tamanho da população dos dois países emergentes contribui para a estatística – já que a população da China e da Índia é bem maior do que a brasileira –, mas é evidente que políticas públicas precisam ser criadas sobre o tema rapidamente.
O mesmo estudo revela também que o Brasil é campeão na falta de dados e estudos sobre a situação da produção, reaproveitamento e reciclagem de eletrônicos. O que existe é a esperança de que, com a nova Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que responsabiliza todos os elos dessa corrente de connsumo, o país possa avançar na destinação do resíduo eletrônico.
Mas o que fazer então? Entre as soluções disponíveis, a reciclagem é a mais inteligente. E a recompensa é boa também. Há mais ouro em uma tonelada de PCs do que em 17 toneladas do minério. Mas, para extraí-lo, muita gente se intoxica e morre no processo.
O lixo eletrônico, pelo visto, é um tema que não dá para se esconder embaixo do tapete. É algo que, infelizmente, veio para ficar – ou não.
Marcadores:
Notícias
Assinar:
Comentários (Atom)